TRIBO FORTE #176 – IOGURTE, INTESTINO E GORDURAS SATURADAS

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Neste Podcast:

  • Prática de epidemiologia;
  • Começo do fim dos tempos;
  • Transplante fecal (isso mesmo);

Escute e passe adiante!!

Saúde é importante!

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Caso de Sucesso do Dia

Referências

Estudo Sobre Iogurte

Transplante Fecal

Transcrição do Episódio

Rodrigo Polesso: Olá! Pegue o seu cafezinho, pegue a sua bebida quente sem açúcar, óbvio. Você está ouvindo nesse momento o episódio número 176 do podcast oficial da Tribo Forte, a sua dose semanal de saúde baseada em evidência. Eu sou o Rodrigo Polesso e hoje nós vamos falar sobre um exemplo clássico de falha, de quão falha é a prática de epidemiologia nutricional. A gente vai falar um pouco do começo do fim dos tempos. É verdade! E também de transplante fecal. Meu Deus do céu! De preferência não escute esse podcast enquanto você estiver fazendo o seu almoço. Enfim, dr. Souto, bem-vindo a esse podcast! Tudo bem por aí?

Dr. Souto: Tudo! Tudo bem, Rodrigo. Bom dia e bom dia aos ouvintes.

Rodrigo Polesso: É isso aí, pessoal. Maravilha! Primeiro eu quero agradecer rapidamente a todo mundo que participou das minhas lives na semana passada. Eu fiz o meio dia forte lá, meia hora, meio dia, todo dia, para falar sobre alimentação forte. Obrigado a todo mundo que foi, foi sensacional! A dra. Janaína Koenen participou também de um dia. Foi bem bacana esse papo. Então, talvez no futuro eu faça mais. A quem participou: muito obrigado. Foi lá no Instagram @rodrigopolesso essas lives aí. Vamos lá! Epidemiologia nutricional. A massa de modelar de qualquer cientista, não é verdade? Você modela de acordo com o que você quiser. Daquela argila você faz o vaso que te bem entender. E esse hoje é mais um exemplo de como nós caímos reféns da epidemiologia nutricional. A bola da vez foi um novo estudo que gerou a seguinte manchete: Homens que comem iogurte têm menor chance, menor risco de desenvolver câncer no cólon. Pois é, o estudo foi publicado no mês passado no British Medical Journal, na categoria Gut, e analisou dados de dezenas de milhares de homens e mulheres do Nurses Health Study e do  Health Professionals Follow-up Study, essas bases de dados antigas que o pessoal tende a analisar bastante. Enfim, são dados antigos. Então o pessoal fez o que? Eles concluíram que homens que consomem, pelo menos, duas porções de iogurte por semana, tem, pasmem, 19% menos chances de desenvolverem câncer no cólon. Interessante, né? Bom, para começar, se você já ouve a gente aqui há um tempo você já diria de cara: se é um estudo epidemiológico, essa associação deveria ser de, no mínimo, 100% (o dobro do risco para poder preencher um dos pré-requisitos de Bradford Hill). Mas tudo bem, se você já pensou nisso ótimo, parabéns! Agora, olha que interessante: eles analisaram todas essas informações de dezenas de milhares de pessoas e acharam que homens que consomem pelo menos duas porções de iogurte por semana têm 19% menos chances de desenvolver câncer no cólon. Só que nenhuma associação foi encontrada em mulheres! Nenhuma associação foi encontrada em mulheres. Que estranho! Nós não somos tão diferentes assim, né? E outra, para a incidência de pólipos no cólon, que são esses defeitos de conglomerados de células que pode desenvolver em câncer também. O risco de desenvolver… quer dizer, o iogurte, para começar, não melhorou em nada a questão do pólipo no cólon. Pior que isso. Se você analisar a tabela, eles nem mencionam isso, o risco de ter esses pólipos é maior em quem diz comer de uma porção até duas porções de iogurte por semana do que quem não come. E daí é um pouco menor em que m come mais de duas. Enfim, são dados totalmente contraditórios. Como eu falei é uma massa de modelar. E o mais engraçado, dr. Souto, é legal ver o pessoal, o cientista defendendo esses pequenos, essas pequenas e ridículas associações e começar a gastar tempo e massa cinzenta investigando possíveis mecanismos que justificam tal benefício. Então eles chegam a pensar: será que é o cálcio desse iogurte que está ajudando via uma pathway lá do intestino? Ou será que são os probióticos que estão ajudando? O que será que é? E outra pergunta que eu faço, ainda, é o seguinte: o que vocês consideram iogurte? Essa pesquisa geral nos anos 80, anos 90, durante esse período de coleta de informações, eles perguntaram se eles consumiam iogurte. Mas o que você considera iogurte? Será que eles consideram iogurte essa substância morta e doce que eles vendem no mercado como iogurte? Porque daí essa teoria mecanística de probióticos seria muito mais fraca. Porque isso não é uma fonte de probióticos de fato. Então eles vieram com a questão do cálcio a tona, para tentar justificar. Enfim, mais um exemplo clássico que vale lembrar de como a epidemiologia nutricional é um… é, enfim… É o que? Eu quero usar um termo fecal, mas não vou usar, não. Diga aí, dr. Souto!  

Dr. Souto: Olha, Rodrigo, esse Willett é o Ancel Keys moderno.

Rodrigo Polesso: Esse é! Meu Deus do céu!

Dr. Souto: Literalmente o nome dele agora pipoca em tudo o que está por trás da visão contemporânea de epidemiologia nutricional. Eu acho que a Nina Teicholz esses dias falou, se não foi ela foi a Vitoria Ede, acho que foi a Vitória Ede, que disse que o Willett é basicamente o inventor da epidemiologia nutricional moderna da forma como ela é praticada hoje. O sujeito é o chefe do serviço de nutrição da Escola de Saúde Pública de Harvard.

Rodrigo Polesso: Incrivelmente falando.

Dr. Souto: Então assim, se eu falo EAT-Lancet, que nós já falamos aqui várias vezes, aquele relatório de pessoas bilionárias que sugeriam que se deveria consumir não mais do que 15 gramas de carne. Quem está por trás daquilo? Willett. Cada vez que sai algum dos incontáveis estudos mostrando que ovos são um problema, que carne vermelha é um problema, que se deve comer mais grãos integrais e tal, sempre o que está por trás são essas duas coortes. A coorte dos profissionais de saúde, a coorte das enfermeiras de Harvard e sempre são estudos capitaneados pelo Willett e pelo Frank Hu, que é o Robin, né? O Willett é Batman. Então ele está sempre lá. Você mencionou aí os critérios de Bradford Hill, lembrando o pessoal que são formas da gente ver em um estudo observacional, que são aqueles que não podem estabelecer causa e efeito, mas, enfim, mesmo o estudo sendo observacional, se ele preenchesse todos aqueles critérios do Bradford Hill, você poderia dizer: olha, provavelmente essa variável é causal. Uma delas é que a magnitude do efeito tem que ser grande. Não basta essa magnitude ridícula de efeito que eles observaram. Por quê? Porque magnitudes pequenas de efeito muito provavelmente se devem ao acaso, pura coincidência. Uma outra coisa muito importante nos critérios de Bradford Hill para estabelecer que uma coisa causa a outra é uma curva dose-resposta. Então, se iogurte protege, um pouco de iogurte vai proteger um pouco e bastante iogurte vai proteger bastante. Mas apareceu aí que um pouco de iogurte é pior que nada. Mas bastante é melhor do que nada. Ou seja, não existe uma relação de dose-resposta. O que é extremamente suspeito de que você esteja, na realidade, observando algo que não é causal. Porque, pessoal, vamos pegar o exemplo de sempre, o exemplo clássico. Lembrando que o dr. Bradford Hill lá nos anos 60 foi o epidemiologista que conseguiu demonstrar que o cigarro estava associado causalmente com câncer de pulmão. Então, o exemplo do cigarro mostra assim: se você fuma um pouco, você tem um risco maior do que se você não fuma nada; se você fuma bastante, você tem um risco ainda maior; e se você fuma muito, você tem um risco muito maior. Quer dizer, há uma dose-resposta. Quando não existe dose-resposta, que é o que você mostrou aí, é muito suspeito. E o outro alto nível de suspeição é a questão de que se encontrou uma associação, mas só em homens, não em mulheres.

Rodrigo Polesso: Bizarro!

Dr. Souto: Tudo bem, tem algumas coisas em medicina que são assim. Especialmente aquelas coisas, por exemplo, câncer de mama. Bom, você vai encontrar uma associação maior de ser obeso com câncer de mama em mulheres, do que homens. Porque, enfim, mulheres tem mais mama. Você vai encontrar uma associação maior de resistência à insulina e síndrome metabólica com câncer de próstata em homens do que em mulheres, porque, bem, mulheres não têm próstata. Agora, homens e mulheres têm cólon, o que torna pouco provável que se ambos consumirem iogurte, seja benéfico apenas em um e não em outro. Então, quando a gente junta tudo isso, esse é o tipo de coisa que não devia nem ter sido publicada.

Rodrigo Polesso: Exato.

Dr. Souto: Olha só, eu, o Polesso, nós realmente achamos que iogurte pode ser um alimento interessante. O iogurte é um alimento rico em proteínas, pouco processado, basicamente é a fermentação do leite. Essa fermentação ajuda a eliminar o açúcar desse leite. Então, o iogurte é mais pobre em carboidratos do que o leite que lhe deu origem. É uma boa fonte de minerais e nutrientes. Então, o iogurte natural integral pode fazer parte de uma alimentação baixa em carboidratos ou de uma alimentação saudável. Nós não estamos questionando que o iogurte faça mal ou não. Nós estamos questionando a epidemiologia nutricional. Porque assim, mesmo o tipo de estudo lixo como esse, que obviamente não prova que iogurte diminui o risco de ter pólipos no intestino, é o mesmo desenho de estudo que quando mostrar que gordura faz mal para alguma coisa, ou carne vermelha faz mal para alguma coisa, ou ovo faz mal para outra coisa, a crítica é a mesma. Não é porque a gente concorda que iogurte possa ser bom para você que nós vamos endossar um estudo de epidemiologia lixo como esse.

Rodrigo Polesso: Exatamente. E o oposto da epidemiologia lixo, como esse estudo, é o Gold Standard, que a gente fala. É um ensaio clínico randomizado, como por exemplo esse que a gente vai falar agora, já que a gente está falando de microbiota intestinal, falando de probióticos. Teve um novo ensaio clínico randomizado…

Dr. Souto: Rodrigo, deixa eu até te interromper para dar um exemplo. Alguns episódios atrás nós falamos aqui de um estudo Gold Standard, de um ensaio clínico randomizado avaliando justamente pacientes com histórico de pólipos intestinais, pacientes que já tinham tido doença no cólon, para avaliar se eles tinham recorrência. Você lembra que nós falamos desse estudo?

Rodrigo Polesso: Lembro.

Dr. Souto: E ele era um estudo que mostrou justamente o contrário do que as pessoas imaginavam. Que uma dieta pobre em gordura, rica em fibras, não ajudava a prevenir a recidiva do do câncer de cólon. Então é muito importante testar as hipóteses em estudos científicos. Um estudo científico é: a gente levanta uma hipótese, a gente desenha um intervenção e a gente testa ela para ver se no mundo real, no mundo empírico, aquilo refuta ou não a hipótese que a gente levantou. Por exemplo, aquele estudo refutou a hipótese de que uma dieta pobre em gordura e rica em fibras vá diminuir a chance de recidiva de câncer de intestino. Agora, esse aí, esse do iogurte serve simplesmente para encher as manchetes e encher as cabeças das pessoas de mais dúvidas e bobagens.

Rodrigo Polesso: Com certeza. Então, esse novo ensaio clínico randomizado que foi duplamente cego e foi controlado para placebo também, é um Gold Standard, o que ele fez? Ele testou os efeitos em termos de perda de peso da técnica de transplante fecal em pessoas obesas. Para o pessoal que nunca ouviu falar nisso, é meio estranho mesmo. Mas existe, existiu há poucos anos, ainda existe em certo ponto, uma espécie de hype sobre estudo da microbiota, de probióticos, onde o pessoal ainda acha e achou no passado, que isso seria solução para tudo. Então todo tipo de intervenção aconteceu a respeito de probiota. E uma das coisas que surgiu foi que quando você transplanta a microbiota, e a melhor forma direta de fazer isso é transplantar fezes de uma pessoa magra e saudável para uma pessoa obesa, que na teoria essa pessoa obesa por causa do transplante de microbiota de uma pessoa magra, começaria a perder peso por causa da influência dessa nova microbiota. Então isso aconteceu bastante e está ainda acontecendo. Esse novo estudo analisou realmente isso, o que aconteceu? Foi um estudo bem controlado, eles pegaram 22 pessoas obesas e dividiram em dois grupos. Um dos grupos iria receber cápsulas de matéria fecal de uma pessoa magra, em forma e saudável. E o outro grupo ia receber cápsulas de placebo. No final de 12 semanas eles iriam analisar o que aconteceu. Então eles pesaram essas pessoas, mediram essas pessoas ao longo de cada semana, ao longo de 12 semanas à medida em que eles iam tomando esse suplemento de fezes. O que aconteceu? Eles verificaram que ao final das 12 semanas, sim, a microbiota das pessoas obesas que tomaram essa pílula de fezes da pessoa magra, se adaptou e começou a ficar mais parecida com a microbiota da pessoa que era magra. Só que o que interessa aqui é a pergunta: será que eles perderam peso como foi a promessa? A resposta é não. Eles não perderam peso nenhum. Então, apesar dessa adaptação da microbiota intestinal por causa desse transplante oral de fezes. É estranho sempre falar isso, né, pessoal? Eu sei. Então, no final eles não tiveram nenhum benefício em termos de perda de peso. Então isso foi testado, é um estudo muito bem controlado, foi feito, foi testado por 12 semanas. Não teve alteração nenhuma de peso. Então, meio que esse fairy tale aí, esse conto de fadas recebeu um balde de água fria nesse sentido. Mas claro que as pessoas ainda continuam focando na questão mecanística. Imagine se esse pessoal não tivesse testado o peso, tivesse testado só a adaptação da microbiota. Eles poderiam dizer: “Nossa, é verdade, ao transplantar, ao tomar suplementos de uma pessoa magra você realmente altera a sua microbiota.” Só que a pergunta que importa sempre, pessoal, é: as pessoas perderam peso ou não perderam peso? Então, dr. Souto?  

Dr. Souto: Esse estudo é muito bom, porque ele entra exatamente na mesma linha que nós estávamos desenvolvendo no anterior. É o assunto do nosso podcast hoje. Então, lembrando pessoal, existem dois tipos de desfecho: desfecho substituto e desfecho concreto. A composição da sua microbiota intestinal pé um desfecho substituto. Por quê? Porque isso não importa. Na realidade, o que importa para o indivíduo é: eu estou mais saudável? Sim ou não? Eu estou com menos gordura corporal? Sim ou não? Esses são desfechos concretos. Então, no caso em pauta desse estudo, o desfecho concreto seria a perda de peso. E o problema do mecanismo, eu vou repetir aqui uma frase que eu gosto, que é assim: o caminho para o inferno é pavimentado não apenas por boas intenções, mas por plausibilidade biológica. Então assim, determinada coisa faz todo sentido, deveria ser assim. Ok, mas a gente pode testar, fazer um estudo e descobrir que não é assim. Só mesmo o teste empírico é que faz a gente ver se uma hipótese é verdadeira ou não. Então, olha lá, incontáveis estudos foram publicados e uma hype, quer dizer, um exagero da imprensa mundial cercou isso nos últimos anos. Vocês devem ter visto estudos do tipo: quando se pesquisou a microbiota intestinal de uma determinada tribo na África, tinha bactérias muito diferentes das dos americanos. E aquela tribo era super saudável, eles praticamente não tinham doença cardiovascular, eram magros e tal. Então, o que nós fazemos? Começamos a sugerir que as pessoas consumam determinados probióticos que tem as bactérias daquela tribo da África. Veja bem, obviamente tem muito mais diferenças no estilo de vida de uma tribo africana em relação ao americano médio, do que a composição do seu cocô. Estilo de vida, exercício, alimentação, sono. Incontáveis diferenças. Então, essa é a questão: uma determinada composição da microbiota intestinal pode estar associada com determinados desfechos. Mas pode não ter absolutamente nenhuma relação com causa e efeito. E, no entanto, nós temos gente por aí dando cursos de como manipular a microbiota das pessoas para que elas sejam mais saudáveis. Acontece que para saber se eu manipulo a microbiota de uma pessoa, se ela vai ser mais saudável ou não eu preciso fazer um experimento, um ensaio clínico randomizado. Eis que o pessoal fez. Deixa eu dar um background ainda para vocês aí que estão nos ouvindo. Alguns anos atrás o estudo que deu a maior hype nesse sentido foi um estudo feito em roedores nos quais se fez exatamente isso que foi feito nas pessoas nesse estudo. Se pegou roedores gordos que foram engordados com dieta e aí se pegou outros roedores que eram roedores magros e se transplantou as fezes dos roedores magros para os roedores gordos. Os roedores gordos emagreceram. Bom, esse estudo alguns anos depois foi retratado por fraude. Então assim, houve um grande hype para dizer isso, que a microbiota poderia ser a solução dos nossos problemas. Mas quando depois veio à público que esse estudo tinha dados falsificados, que ele era irreprodutível, que ele não era verdadeiro, saiu bem pequeno e em poucos lugares. E agora, enfim, nós temos esse estudo aí mostrando que se você pega a microbiota de uma pessoa saudável, magra e coloca em outro paciente obeso, que a microbiota do novo paciente muda mas, no entanto, ele não emagrece. Assim, a bem da verdade é que isso não deveria nos surpreender, né? Porque faz muito mais sentido que a coisa seja ao contrário, que a seta da causalidade seja ao contrário. Ou seja, quem come bem, quem tem uma dieta limpa vai alimentar um determinado tipo de bactéria do seu intestino. Quem come uma dieta baseada em açúcar, farinha e alimentos processados, vai alimentar outro tipo de bactéria. E o que está determinando o desfecho ruim, que é o ganho de peso, é a dieta ruim. Aquelas bactérias provavelmente são apenas um marcador de uma dieta ruim. Então, vocês veem que é um tema que se repete. O consumir ovos é um marcador de pessoas que não seguem as diretrizes. Essas pessoas não seguem diretrizes no quis respeito a outras coisas, aí você acha um desfecho ruim cuja culpa não é o ovo… E sim as outras coisas que a pessoas faz. Então, isso tem que se tornar um hábito quase obsessivo, uma repetição, um mantra. Cinco vezes por dia você tem que se voltar para o podcast da Tribo Forte, se ajoelhar e rezar cinco vezes por dia que causa e efeito é uma coisa e associação é outra. Que alguma coisa pode ser apenas um marcador de outros hábitos sem ser a causa. Então, esse aí é mais um belo exemplo de uma teoria bonita. Acho que foi o Mark Twain que disse que é uma pena quando os fatos insistem em atropelar o caminho de uma teoria bonita.

Rodrigo Polesso: É uma lástima, mas fazer o quê?

Dr. Souto: É uma lástima! A teoria é bonita, seria sensacional se realmente a composição da microbiota fosse a coisa mais importante em determinar a sua saúde ou seu índice de massa corporal. E todos os estudos observacionais apontavam para isso. Mas aí você faz o ensaio clínico randomizado e não é. Um adendo é assim… Não estou dizendo que a microbiota não tem nenhuma importância. E talvez a gente ainda venha a descobrir que manipulações da microbiota podem ser importantes para a saúde, para doenças, para seja lá o que for. Mas o dia que a gente descobrir vai ser através de um ensaio clínico randomizado, não vai ser por mecanismo. Não vai ser avaliando a composição das fezes dos atletas e comparando com sedentários. Não é assim. É fazendo um experimento. O dia que a gente pegar o cocô de um atleta de botar num sedentário e aí o sedentário ficar sarado, aí eu vou acreditar que uma coisa causa a outra.

Rodrigo Polesso: Ter isso em mente, esse negócio de casualidade e associação… Isso vai te proteger muito da mídia que você vê por aí. Só esse fato que o Dr. Souto falou… Veja o podcast da Tribo… Olhe para ele e repita o mantra… Casualidade e associação são coisas diferentes… Muito, muito diferentes. Olha só… O testemunho do dia. Quem mandou para a gente foi a Delma de Melo. Ela mandou: “Olá, pessoal! Eu comecei o desafio 30 dias faz uma semana. Estou muito contente hoje, começando a semana feliz e ansiosa para vencer esse desafio com resultados bem positivos de menos 4,5 quilos.” Em uma semana só o corpo dela reagiu positivamente e conseguiu eliminar 4,5 quilos, claro que de gordura e também de água retida. Mas está no caminho certo de reprogramação desse sistema hormonal para a queima de gordura. Ele seguiu o desafio 30 dias… Está seguindo o desafio 30 dias… Que é a primeira fase do programa Código Emagrecer de Vez, onde a alimentação forte é otimizada para emagrecimento. Então, se seu objetivo é emagrecimento baseado em ciência, entre aí em CodigoEmagrecerDeVez.com.br. Agora, esse próximo tópico é aquele negócio do sinal dos tempos… Está feia a coisa… No podcast passado nós falamos das enormes críticas que o novo rascunho de diretrizes alimentares da Organização Mundial da Saúde recebeu de importantes cientistas do mundo inteiro. Eles continuam ainda disseminando o medo e recomendando que as pessoas reduzam o consumo de gordura saturada, apesar de toda evidência que mostra o contrário disso. Então, a Organização Mundial da Saúde também… Quando eles dão essas diretrizes, isso acaba influenciando governos com as suas próprias diretrizes… Então, o impacto potencial dessas diretrizes é de bilhões de pessoas. Agora a OMS planeja… Olha só… Que coisa terrível… Taxar globalmente os alimentos que são altos em gordura saturada na esperança de “melhorar a dieta da população”. Esse pode ser o começo do fim dos tempos para muita gente, pessoal. Tem um artigo novo que foi publicado agora… Para corroborar isso aí… Quem postou foi a Nina Teicholz… Acho que foi quem mencionou isso aí… Eu fui ver esse artigo que também está corroborando… Falando de uma hipótese de começar a se taxar gordura saturada… Substituir gordura saturada por gordura poli-insaturada… A gente sabe que isso sim que mata… Nessa hipótese eles fizeram uma análise, estatística, não sei o quê… E resumindo eles concluíram que na hipótese de taxar iria reduzir em 29,5% o número de problemas cardíacos em homens… Eles chegaram num monte de números aqui. Então, uma pessoa ignorante cientificamente… Uma pessoa que trabalhava na OMS, por exemplo… Vai ver um estudo desse bonitinho, publicado e tal… E vai achar que a ideia dele da agenda vegetariana anticientífica deles faz sentido, ao ver esse tipo de coisa corroborando. Dr. Souto, mais uma vez o governo tentando colocar o dedo em coisas que não sabem principalmente de fronte a toda a pilha de evidências mostrando o oposto disso, mostrando que gordura saturada natural sempre foi natural e não causa problema algum. Então, o que eles estão fazendo, resumindo, pessoal… Então querendo taxar globalmente alimentos que são altos em gordura saturada, que basicamente são os alimentos mais nutritivos que existem no planeta… Vai sobrar o quê? Vai sobrar alimento vegetal. Até azeite de oliva, na verdade, seria taxado, porque 14% é isso. Salmão também deveria ser taxado. Vai sobrar tofu, feijão, essas coisas… Dizendo para a gente consumir ao invés gorduras poli-insaturadas que são pró-inflamatórias e são associadas – essas sim – a problemas cardíacos. Então, como a gente segura esse bonde, Dr. Souto? Eu acho que é se protegendo e tentando cada um de nós se salvar individualmente.

Dr. Souto: É. Acho que é o que resta, é o que sobra. E é espantoso. Nós conversamos no podcast passado sobre o excelente artigo que saiu do British Medical Journal com vários autores. Eu até salientei que um deles era o Mozafarian, que é um sujeito bastante conservador até o quesito da nutrição, mas todos concordando que simplesmente não existe base científica para dizer que gordura saturada é um problema para doença cardiovascular e, na realidade, os estudos que realmente interessam… Quais são? Os ensaios clínicos randomizados não mostraram que a redução de gordura total ou gordura saturada reduz a mortalidade cardiovascular, ou seja, isso que a OMS está dizendo é uma bobagem. É algo inventado da cabeça deles. No entanto, como você disse, é muito influente. As pessoas tendem a ter uma relação de quase reverência com o que diz um órgão como a OMS. Se eles que são a OMS e estudam isso mais do que ninguém estão dizendo isso, só pode ser verdade. Então, existe um apelo à autoridade que é muito difícil. Como você disse, na verdade… Não existem gorduras isoladas. Então, quando a gente come, seja um peixe, seja um ovo, seja uma carne, seja azeite de oliva, aquilo é sempre um conjunto de três tipos de gordura. Saturada, monoinsaturada e poli-insaturada. De modo que não se consome gordura saturada sozinha. Não tem como reduzir a saturada sozinha. Quando você estiver taxando a gordura saturada, você vai estar taxando alguns dos alimentos mais nutritivos, mais nutricionalmente densos, mais importantes da dieta humana. Porque você quer reduzir um nutriente que nunca foi demonstrado que tenha relação com os desfechos que você alega. É um mundo distópico. Eu olho isso com aquela incredulidade de quem… Eu fico imaginando aqueles filósofos, historiadores que foram vendo o mundo inexoravelmente caminhar para a Segunda Guerra Mundial… O fascismo crescendo naquela época… E aquela impotência do pessoal olhando e dizendo assim… É tão evidente que isso vai dar m… E, no entanto, o mundo parecia não ver… Caminhou inexoravelmente para m. Eu acho que a gente está vendo o holocausto nutricional se formando. Desculpa parecer dramático, mas é muito difícil, pessoal.

Rodrigo Polesso: É muito difícil. Salve-se quem puder. Quem tem informação que se salve. Vivendo dando exemplo… Acho que é a melhor forma de influenciar as outras pessoas… Você sendo exemplo de saúde, um exemplo de boa forma. Se for contar com autoridade, a gente vê, pessoal… Quem que na rua vai confiar mais em você do que na Organização Mundial da Saúde? Então, se isso saiu na notícia, saiu no jornal, as pessoas vão ver a Organização Mundial da Saúde falando uma coisa e você, uma pessoa que não é parte da OMS falando o oposto. Em quem eles vão acreditar? É a falácia da autoridade. Quando você entende que sim, é possível nesse mundo atual que um órgão tão grande esteja tão errado. É possível e é verdade. Esta aí para todo mundo ver. É só analisar as evidências.

Dr. Souto: Uma coisa interessante das pessoas terem em mente… Por isso que a gente salienta aquele artigo do British Medical Journal. Acho que são 18 autoridades nutricionais importantes do mundo… Autores e tal… Ok, mesmo que você siga a falácia da autoridade, é importante se dar conta de que existe… Não há consenso nessas autoridades. Então, se realmente precisa ter uma autoridade que você tenha que seguir… Então nós estamos sugerindo outras autoridades aqui. Então, tem aquele grupo lá. São todos professores, chefes de departamentos de universidades importantes do mundo afora que estão dizendo alto e claro que as diretrizes da OMS estão erradas do ponto de vista metodológico, e inclusive do ponto de vista da epidemiologia nutricional. Não é o Souto e o Polesso que estão dizendo. A gente está dizendo… Olha, não existe unanimidade nessas autoridades. Existem autoridades aqui que estão discordando e, ao discordar, utilizando argumentos que do ponto de vista lógico são mais sólidos. É clichê, mas é verdade. As unanimidades são burras. Normalmente, quando a gente começa a ter um pensamento único e uma unanimidade… Lá no exemplo que eu dei da Europa pré Segunda Guerra, o pensamento único era um pensamento autoritário. E agora o pensamento único… Bem, não preciso nem dizer qual é. Então, cuidado, pessoal. Existem uma série de autoridades que estão discordando com argumentos muito melhores do que a Organização Mundial da Saúde. É bom prestar atenção.

Rodrigo Polesso: Com certeza. Vai ter mais por vir nessa novela com certeza. Dr. Souto, chegou a hora de comentar o que você degustou na sua última refeição.

Dr. Souto: Olha, Rodrigo, na realidade, eu estou em jejum desde o almoço de ontem. E agora são 15 para às 11 da manhã. A última refeição eu comi… Estava na serra, comi um fondue de queijo e um fondue de carne no almoço. E antes que o pessoal entre em pânico, fondue de queijo não precisa ser comido com pão. Tem o queijo… O pessoal traz leguiminhos… Então, dá para mergulhar no queijo o brócolis, a cenourinha, uns picles… Fica bem gostoso. E o fondue de carne, bem… É carne, né? E tem molinhos de todos os tipos ali. Você não precisa escolher a geleia de uva, né?

Rodrigo Polesso: E também dá para comer no almoço, então? É permitido?

Dr. Souto: É permitido. Exatamente. É bom porque a gente se passa e aí não passa a noite se arrependendo de ter comido demais.

Rodrigo Polesso: É verdade.

Dr. Souto: Dá tempo de baixar durante o dia e aí o que acontece? Quando você faz uma versão low carb dessas… A gente muitas vezes fala… Aliás, esse é um tópico legal. Com comida de verdade, baixa em carboidratos a gente não come demais, a gente não come em excesso. Bom, isso é uma meia verdade. Numa situação que nem essa com certeza eu comi o dobro do que eu normalmente comeria. Mas aí o que acontece? Eu fiquei sem fome.

Rodrigo Polesso: A fome fica saciada.

Dr. Souto: Entendeu? Essa é a diferença. Se eu tivesse comido um monte de macarrão e polenta no almoço, provavelmente eu já teria jantado ontem, se é que não teria comido um lanche no meio da tarde. Porque esses alimentos não saciam. Eles dão picos de glicose, pico de insulina e depois quando essa glicemia cai, a fome volta. São alimentos pouco densos do ponto de vista nutricional. Ou seja, com muita energia na forma de glicose e pouca proteína, de modo que a saciedade é baixa, ao contrário do tipo de almoço que eu fiz, que é basicamente proteína e gordura, com baixo carboidrato, que dá uma saciedade que está durando quase 24 horas.

Rodrigo Polesso: A diferença é gritante.

Dr. Souto: Quando a gente… O termo em inglês overeat… Quando a gente come demais de comida de verdade… De uma alimentação forte, uma alimentação nutricionalmente densa, até dá para fazer esse overeating, comer demais. Mas o corpo, através do mecanismo de homeostase do próprio corpo compensa, diminuindo o apetite para a próxima refeição, de modo que dentro das 24 horas, você não está comendo demais.

Rodrigo Polesso: Exato. É mágica. É simplesmente o corpo humano. Vai ficar a dica para vocês agora. Ontem à noite eu fiz o mesmo prato que eles servem no buffet do jardim do Éden. Quando você conhecer o jardim do Éden, vão servir isso para você. É um belo de um hambúrguer… Um de carneiro ou de carne de vaca. Você pega e faz um bacon também ao mesmo tempo… Você faz um hambúrguer, depois você pega um queijo azul também, que é tipo um gorgonzola. Quando hambúrguer estiver quase pronto, você via a parte quente, põe esse queijo por cima para derreter em cima do hambúrguer e, para finalizar, você põe por cima duas fatias de bacon. Pessoal, façam e depois me digam o que é esse negócio. Claro, não precisa colocar duas fatias de pão para fechar um hambúrguer. Come só a parte boa. Come só o hambúrguer, o queijo e o bacon. Isso vai te deixar salivando e querendo comer um monte. Também dá para overeat. Dá para comer bastante disso aí também. Só que como o Dr. Souto falou, isso é compensado no apetite depois… Na saciedade da fome depois. Mas fica a dica aí. É isso que eles servem no Jardim do Éden quando você chegar lá. É tão bom que não dá para acreditar.

Dr. Souto: Posso dar um último pitaco de um estudo que me lembrei? Rapidinho. Só para fechar no mesmo tópico que nós falamos no episódio inteiro. Saiu na mídia um estudo mostrando que o consumo excessivo de bebidas açucaradas está associado com o aumento da incidência de câncer. Sabe por que a gente não repercutiu loucamente esse estudo aqui?

Rodrigo Polesso: Porque a gente não comete o mesmo erro que eles estão cometendo.

Dr. Souto: Exatamente. Porque nós aqui tentamos ser coerentes. Porque é um estudo lixo. Como assim um estudo lixo? Sim, ele é um estudo observacional epidemiológico desses de Harvard, desses feitos com questionários… Nos quais a diferença observada foi absolutamente minúscula em termos absolutos… E que pode ser simplesmente ao acaso porque essas pessoas que estão consumindo mais esse tipo de bebida também têm outros hábitos ruins, ou seja, ele é um estudo que não prova nada. Então, estudo epidemiológico observacional não presta nem para quando diz que ovo faz mal, mas também não presta para quando diz que refrigerante faz mal. Sim, eu sei que refrigerante faz mal, mas nós temos uma série de ensaios clínicos randomizados para mostrar isso. Nós temos estudos mostrando que um aumento no consumo de açúcar em questão de semanas provoca síndrome metabólica e gordura no fígado. Então, nós não precisamos de estudo observacional lixo para isso. Eu até acho que é bem provável que o consumo excessivo de açúcar possa provocar câncer, mas a gente acha, a gente não afirma. Ao contrário dos nossos adversários nesse mundo, que afirmam que cigarro e ovo é a mesma coisa baseado nesse tipo de estudo lixo.

Rodrigo Polesso: Esse é um bom ponto. Essa é uma parte que define bastante a índole de uma pessoa. Você critica quando tem que criticar, mas depois você comete o mesmo erro sendo um hipócrita quando favorece a sua hipótese. Vamos tomar cuidado com esse tipo de coisa.

Dr. Souto: Estudo observacional epidemiológico é sempre um estudo problemático em epidemiologia nutricional… É quase horóscopo. Começa a ter algum valor quando são magnitudes de efeitos gigantes, quando têm aquela curva dose-resposta, quando tem temporalidade, quando tem uma série de critérios. Então, esse estudo que mudou, se não me engano, dois casos em cada mil pessoas… Isso aí obviamente está muito abaixo do nível em que se considera que isso seja simplesmente devido ao acaso provavelmente. Então, o ideal é que esse tipo de estudo não fosse nem publicado. Em sendo publicado, que não gerasse manchetes, sejam elas a favor ou contra aquilo que a gente pensa.

Rodrigo Polesso: Com certeza. Isso aí. Pessoal, fechamos aqui. Sigam a gente no Instagram. Siga o Dr. Souto no @jcsouto. Siga Rodrigo Polesso no @rodrigopolesso e também a @ablc.org.br. Se rodeie dessa positividade de evidências para tentar melhorar sua saúde, sua boa forma também. E conte com a Tribo Forte. TriboForte.com.br. Tem uma coleção de mais de 500 receitas lá que você pode curtir para deixar seu dia a dia bem mais dinâmico, bem mais saboroso. A gente fica por aqui. A gente se fala no próximo podcast. Dr. Souto, obrigado. A gente se fala.Dr. Souto: Obrigado! Até a próxima!